30 julho 2014

Momento


Imagem: weheartit
Eles se conheceram quando ela entrou na faculdade. Como toda caloura, fazia questão de parecer invisível, mas suas tentativas não surtiram efeitos nas aulas de Introdução à Psicologia. O professor William, era esse seu nome, logo a escolheu como aquela que comprovaria que ao menos uma pessoa da turma estava atenta a sua aula. No início, ela detestou isso, mas com o passar do tempo viu nesse fato uma espécie de jogo, e disse a si mesma que não se deixaria vencer pelo insistente – e às vezes, chato – professor. Assim começaram entre eles as provocações. William a instigava com perguntas e olhares, e ela, respondia-lhe com irônica desenvoltura. Desses joguinhos durante as aulas, eles passaram às discretas trocas de olhares e breves conversas nos corredores e mesmo na cantina da faculdade. Algo começava a surgir entre os dois, e eles perceberam isso.

Demoraram seis meses nessas disputas, conversas, mas o dia em que eles cederam à atração que exerciam um sobre o outro finalmente chegou. Foi numa sexta-feira, dia em que normalmente Eliza esperava sua colega de quarto na saída do campus. Ela tinha uma aula a menos que a amiga e por isso sempre ficava perambulando pelo pequeno bosque que ficava ao lado da biblioteca. Naquele dia ela estava sentada na grama, entretida nas páginas do romance que compra a alguns dias atrás - um romance de época, estilo de livro que sempre carregava na bolsa - quando William se aproximou. Sem pedir licença sentou ao seu lado e tocou sua mão, fazendo com que ela tirasse os olhos do livro e o encarasse. Alguns segundos que pareceram uma eternidade, olhares que dispensavam qualquer palavra e um beijo aconteceu. Aflito, intenso, como se os dois esperassem por aquele momento há tempos - e eles esperavam mesmo!. Sem outra necessidade se não a de vivenciar aquela força que os unia, eles levantaram e seguiram em direção ao carro de William.


***

Eliza reconhecia ainda agora que naquele dia ela sabia exatamente o que iria acontecer. Mais que isso, ela reconhecia que queria aquilo como o sedento quer a água em pleno deserto, por isso não disse não quando ele a convidou para conhecer seu apartamento. Por mais louca que aquela situação se apresentasse, mesmo sem saber ao certo que ligação era aquela que estava se formando entre eles, ela queria estar com William, conhecê-lo, senti-lo. Mais que o coração, o corpo de Eliza ansiava por isso. E foi assim que não houve resistência alguma...


***

Mal entraram no pequeno apartamento de William, eles se entregaram um ao outro sem receios e sem pudores. Pele, mãos, bocas, tudo parecia uma forma de explorar ou algo a ser explorado. Ela se entregava a cada toque dele em seu corpo, às mãos dele percorrendo suas curvas; ele a buscava com insistência, ardor e paixão. Pela primeira vez ela se viu realmente desejada, porque tudo no corpo de William lhe revelava isso. E o desejo atingiu o seu ápice quando ele a tomou por completo; quando seus corpos se tornaram um; quando olhando-o nos olhos, ela viu neles o reflexo de tudo o que trazia no coração. E todo aquele frenesi, aquela ânsia insaciável cedeu lugar ao êxtase e paz que a aquele momento se segue.

No dia seguinte foi a última prova de Introdução à Psicologia daquele semestre. Eliza tentava se concentrar na folha que tinha em sua carteira, mas não conseguia tirar os olhos do professor, não conseguia esquecer a tarde que passara nos braços dele. William a encarava, falando-lhe com os olhos que ela devia voltar sua atenção à prova, mostrava-lhe discretamente o relógio que ficava sobre a lousa como que tentando lembrá-la de que o tempo estava se esgotando. Ao se dar conta disso, ela se voltou para as questões que ainda restavam em branco na sua folha e só teve o tempo exato para respondê-las. O alarme soou. Os alunos começaram a levantar e seguiram em direção ao birô onde William estava. Ela permaneceu sentada, pretextando arrumar a bolsa e procurar o celular. Queria ficar por último para conversar com ele.

"- Oi.. Aqui está minha prova." 
"- Muito bem! Da próxima vez fique mais atenta, Eliza. Boa sorte!" - ele disse isso enquanto guardava as provas que acabara de receber numa pasta e, sem encara-la, foi dirigindo-se à porta da sala.
"- William! Espera. Quero falar com você..."
"- Olhe, Eliza, agora não é a hora e nem o local apropriado para o que quer que seja que você queira me falar. Eu te ligo quando chegar em casa, tudo bem?" 
Ela não disfarçou o desagrado que aquelas palavras lhe causaram. Não esperava por elas, não depois do que houve entre eles. Mas conseguiu conter o impulso de raiva que lhe brotou e respondeu:  
"- Tudo bem, "professor"! E saiu batendo a porta logo a frente dele.

Eliza foi para casa indignada. Atordoada, nem esperou por Catarina, sua colega de quarto na república onde morava. Não aceitava o "fora" de William, não depois do que viveram no dia anterior. Seu orgulho fora ferido, sua dignidade de mulher fora simplesmente desprezada. "O que ele pensava estar fazendo? O que pensava a respeito dela?" Esses pensamentos rondaram sua cabeça durante o resto do dia, enquanto ela esperava o menor toque do celular. Nas três vezes em que ele chamou, ela rejeitou a ligação ao perceber que não era o número de William o que aparecia na tela. Mas a noite chegou e ele não ligou, e nem nos dois dias seguintes.

Na manhã da segunda-feira enquanto ela arrumava a mesa depois de terem tomado o café da manhã, e Catarina terminava de se maquiar em frente ao espelho do banheiro, ele finalmente telefonou. De inicio, ela pensou em não atender a ligação, mas a amiga, adivinhando que dessa vez era William ao telefone, correu e tomando-lhe o aparelho das mãos, atendeu dizendo:  
"- Pronto." 
"- Desculpa, esse não é o número de Eliza?"
"- É sim, vou passar pra ela." 
Fuzilando Catarina com os olhos, Eliza pegou o telefone e disse:
"- Oi!" 
"- Bom dia, Eliza! Posso passar aí pra te pegar? A gente pode ir juntos pra faculdade, daí conversamos no trajeto..."
"- Não William, não tenho nada pra falar com você."
"- Não faz isso, menina. Desculpa se não te liguei como combinamos, tive uns contratempos. Vamos conversar, vai!"
Ouvindo a conversa da amiga ao telefone, Catarina fazia-lhe sinais dizendo para que ela aceitasse o pedido de William. Indecisa, Eliza soltou um fundo suspiro e concordou:
"- Tudo bem, "professor"! - falou com ironia - "Espero você na portaria!" 

Vinte minutos depois Eliza entrou no carro de William. "Oi", ele disse ao tentar beijá-la. Ela virou o rosto e quando voltou a encará-lo estava mais séria e mais brava do que ele esperava.  
"- Eliza..." - ele começou a falar - "...novamente desculpa por não ter te ligado. Como te disse no telefone, tive alguns contratempos e, também, achei melhor pôr as ideias no lugar antes de conversarmos sobre qualquer coisa..."
"- Qualquer coisa, William?" - ela o interrompeu -  "A tarde que passamos juntos pra você foi qualquer coisa? Você não me obrigou a nada, fiz exatamente o que eu quis nos momentos em que estivemos juntos... mas, por favor, não faz com que eu me arrependa de ter estado contigo, de ter te conhecido.” 
"- Olha, eu preferia... seria melhor para nós dois que você não criasse expectativas, entende? Foi tão gostoso o que fizemos e a gente pode continuar se divertindo, mas não espera muito além... Eu tô numa boa, você também. Vamos ficar assim, pode ser?"

Eliza não acreditou nas palavras que acabara de ouvir, não quis acreditar. De fato não havia nenhum compromisso entre eles, e ela não esperava que houvesse um depois daquela única tarde. Mas, como ele ousava pensar que ela seguiria adiante quando ele mesmo acabava de fechar todas as possibilidades que se abriram pra eles? Não. Se ele estava numa boa, ela também estava e assim pretendia ficar, por isso pediu que William parasse o carro. Ele ainda tentou convencê-la a ficar, mas ela foi irredutível quando disse:  
"- Você tem razão, William. Foi muito bom, foi ótimo os momentos em que estivemos juntos. Mas, sabe, se é só aquilo que você pode me dar, eu dispenso, porque não vou e nem quero me contentar com tão pouco. Permaneça você na sua "boa" que eu vou buscar uma "melhor" pra mim. Até daqui a pouco, "professor"!

Destravando a porta do carro que ele acabara de parar, William viu a menina descer e seguir seu caminho sem olhar para trás...

Imagem: weheartit

*****

Oii, Poéticos! Pela primeira vez trago um miniconto pra dividir com vocês. Alias, esse foi o primeiro que escrevi.  Sabem quando a história está viva dentro da sua cabeça, implorando para ser escrita? Então, foi mais ou menos o que me aconteceu com essa. Fiquei horas em frente ao pc e, quando pus o ponto final, fiquei surpresa ao ler isso aí. O que acharam? Eu não sei dizer se esse é o final dela, mas, espero que gostem e, desde já, agradeço a opinião de todos!

Beijos,

Malu

11 comentários:

  1. Muuuuuuuuuuuuuiiiiiiiiiiito lindo Malu!
    Adorei o conto! E com certeza será o primeiro de muitos!!! <3

    Beijinhos!

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    1. Você o viu em primeira mão, Van, e só por isso ele veio pra cá! Obrigada! <3

      Beijos!

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  2. Continua! Continua! Continua! \0/ \0/ \0/
    Adorei, amei, invejei!
    Não sei nem o que dizer!!!!!
    Principalmente quando a inspiração vem de lá de onde você sabe!
    Perfeito!
    Quero mais!
    Pode mandar exclusivamente para mim!
    kkkkkkkkkkkk
    Bjos Malu!!!

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    1. Nossa, fico feliz que você tenha gostado, Juu! De verdade! Logo você, de quem já li contos fantásticos!!!! ^^
      Sobre continuar, eu realmente não sei. Não sei se esse é o final, ou não. Aliás, nem sei de onde e como esse conto veio... eu acho...

      Beijo, beijo! Obrigada! <3

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Os melhores textos saem exatamente deste lugar Malu; este misterioso "Não sei de onde", que guarda nossas melhores inspirações. Que ele continue trazendo as suas á tona, para nos presentear dessa maneira! *.*

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    1. Então, Ju...

      Esse lugar misterioso é novo pra mim, nunca havia entrado em seus domínios antes. Até porque, como você sabe, minha relação com a escrita é um tanto parasitária, já que a uso por questão de sobrevivência quase! Meus textos, a maioria deles, foram meio que "arrancados", entende? Já esse, ao contrário, estava pronto, inteiro, bastou pôr os dedos no teclado e ele fluiu como água da chuva correndo no chão...

      Como disse, fico feliz por você ter apreciado! Obrigada!

      Ps: que esse lugar misterioso esteja de portas abertas pra cada uma de nós, então! <3

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  5. Gostei muito do conto _ com ótima descrição e diálogos.
    Quando outra ideia voltar nao hesite , pode ser começo de uma boa contadora de histórias_ daí o primeiro livro pode sair,Malu
    Parabéns muito bom!.

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    1. Oi, Lis!

      Obrigada pela visita no nosso cantinho, e pelo carinhoso comentário!
      Sabe, sempre achei que narração e inserção de diálogos fosse uma das coisas mais difíceis de se fazer num texto (e continuo achando!), por isso alegra-me que vc tenha gostado do resultado!
      Obrigada!
      Beijos!

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  6. Malu que conto lindo! Adorei a mulher decidida que é a Eliza, quando crescer quero ser igual a ela! rs
    E continue essa história por favor! Está muito, muito linda! Ah e mande em primeira mão para mim também viu? rsrs
    Beijos!

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    1. Ei, Cá!

      Deixa te contar um segredo: também quero ser como a Eliza quando crescer!
      haha

      Obrigada, viu? E pode deixar, se esse conto tiver continuação, vocês serão as primeiras a saber! :)

      Beijos!

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